Publicado em: 10/08/2026
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Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango é entregue à comunidade

Território passou por obras de reabilitação arquitetônica e foi contemplado no Programa Minas Para Sempre


A comunidade do Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango celebrou, na última quinta-feira (6), a entrega do projeto "Reabilitação geotécnica e arquitetônica" do seu território, em Santa Luzia. As intervenções contemplaram contenção emergencial de encostas – que apresentavam risco iminente de deslizamento –, reconstrução de edificações, serviços de drenagem do terreno, melhorias nas redes elétrica e hidrossanitária.

Os recursos de R$ 1,18 milhão foram contemplados pelo Programa Minas para Sempre, via Semente, provenientes de medida compensatória socioambiental estabelecida pelo MPMG em Termo de Compromisso firmado em Ação Civil Pública.


Proteção do patrimônio cultural

O objetivo da reabilitação geotécnica e arquitetônica da comunidade é preservar e valorizar um dos mais importantes territórios tradicionais de matriz afro-brasileira de Minas Gerais. Em 2017, o Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango foi reconhecido como patrimônio imaterial pelo município de Belo Horizonte. Em 2018, esse renhecimento foi dado também pelo Estado de Minas Gerais.

O projeto entregue nesta quinta-feira, 6 de agosto, garante mais segurança ao território e contribui para a preservação da memória, da identidade e das tradições afro-brasileiras mantidas pela comunidade. A recuperação da área fortalece a proteção de um patrimônio cultural e cria melhores condições para que seus moradores continuem desenvolvendo atividades culturais, religiosas e comunitárias.

De acordo com o promotor de Justiça Marcelo Maffra, responsável pela Coordenadoria do Patrimônio Cultural (CPPC) do MPMG, um dos pilares do Programa Minas para Sempre é buscar diversidade das pautas do patrimônio histórico e cultural. Ele comentou que, nos últimos anos, foram investidos cerca de R$ 70 milhões em mais de 60 projetos pulverizados pelo estado de Minas Gerais, que contemplam as mais variadas tipologias de patrimônio cultural.

"O quilombo Manzo é símbolo de resistência, é um projeto que representa a história de Minas Gerais de uma forma muito significativa. E essa história se junta com a área de atuação do Ministério Público na defesa dos direitos difusos e coletivos. É uma obra com impacto social gigantesco e uma comunidade inteira beneficiada", afirmou Maffra.

As obras foram executadas pela Joaquim Artes e Ofícios e duraram cerca de dois anos. O diretor presidente da organização, José Theobaldo Jr., ressaltou os desafios encarados no projeto. Além do risco de deslizamento de terra, foi fundamental respeitar as referências religiosas e ritualísticas da comunidade. "A gente conversou com a Mãe Efigênia e a Makota Cássia sobre os materiais usados, como o reboco, e também sobre o respeito aos rituais, ao que é considerado sagrado para eles", comentou.

O projeto incluiu a reconstrução do salão onde são feitos os rituais, da cozinha, além de anexos e de banheiros acessíveis. De acordo com a equipe de arquitetura e engenharia do Joaquim Artes e Ofícios, todas as edificações antigas precisaram ser demolidas porque não havia possibilidade de aproveitamento. Para conter a encosta, foi construído um muro de arrimo de seis metros de altura e seis de profundidade, com proteção de sacos de terra e cimento nas extremidades, além de canaletas para drenagem da água da chuva.


Emoção

Mãe Efigênia, líder da comunidade quilombola, comentou emocionada como é receber o local renovado. "Isso hoje para mim é uma glória. Eu nunca pensei na minha vida chegar e passar a mão numa casa rebocada, porque a minha casa era de madeira. Era de caixotinho que eu fiz, eu mesma que fiz, tirando o pau lá da Serra do Curral, carregando na cabeça para esconder meus filhos da chuva e do vento. E hoje eu tenho. Tô muito feliz, gente. Eu não tô acreditando. Daqui a pouco a ficha cai. Eu tô muito feliz. Muito obrigada", disse.

Makota Célia, filha mais velha de Mãe Efigênia, falou sobre a importância de manter as tradições do seu povo e de protegê-las por meio das construções que foram recebidas do Ministério Público: "Nós somos a ressignificação da memória ancestral. Essas obras são uma reparação histórica. O Estado precisa ser laico pra permitir que a gente possa rezar."


História e resistência

A história do Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango está diretamente ligada à trajetória de sua fundadora, Efigênia Maria da Conceição, conhecida como Mãe Efigênia. Descendente de indígenas e de africanos escravizados que viveram na região do Morro da Queimada, em Ouro Preto, ela se mudou com a família para o bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte, em 1955.

No início da década de 1970, Mãe Efigênia adquiriu um terreno que se tornou o núcleo da comunidade, formada por familiares e pessoas acolhidas ao longo dos anos. No local funcionava o terreiro de umbanda Senzala de Pai Benedito, que posteriormente se transformou em uma casa de Candomblé Angola da tradição Bantu.

Em razão da perseguição religiosa e do racismo que eles enfrentaram, parte dos integrantes se estabeleceu, em 2007, no bairro Bonanza, em Santa Luzia. Atualmente, o Kilombo Manzo desenvolve atividades tanto em Santa Luzia quanto em Belo Horizonte.


Sobre o Semente

Semente conecta o MPMG à sociedade, em parceria com o CeMAIS, viabilizando iniciativas transformadoras que beneficiam as pessoas e o meio ambiente. Ele é uma alternativa segura, democrática e transparente para que os Promotores de Justiça possam destinar recursos advindos de medidas compensatórias a projetos de relevante interesse socioambiental e que proporcionem resultados para toda a sociedade.

No Instagram: @novosemente.

 

Fotos: Amanda Bastos/Semente e Francisco Luz/Semente

Com informações da Assessoria de Comunicação do MPMG

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